Festival

Neste turbulento ano, as novas datas do Festival Internacional de Cinema e Literatura de Olhão decorrerão em pleno Verão, de 15 a 21 de Julho, e, assim, fazendo da necessidade virtude, voltamos com mais actividades ao ar livre. Graças, especialmente, às esplêndidas noites do Verão algarvio, muitos dos filmes da competição internacional passam para sessões ao ar livre no pátio da República 14, que há muitos anos nos vem habituando a serões cinematográficos a céu aberto. O essencial da programação mantém-se: a competição internacional, a retrospectiva do realizador Albert Serra, o ciclo de cinema italiano, país convidado desta edição. Porém, algumas actividades viram-se canceladas, por considerarmos não reunir as condições para estas acontecerem com total segurança para os artistas e participantes. Por exemplo, a Leitura Encenada com orientação de Rogério de Carvalho, a partir do guião escrito por Tiago Hespanha em Olhão, que será realizada junto com outras actividades em próximas edições, com toda a pompa que merece.

Em relação à programação de filmes, o Ciclo de Gótico Tropical, um ciclo que explora a inquietação e as sombras, será igualmente adiado. Defendemos que, no gótico, o horror se estende ao presente como preocupação estética de um passado e presente perturbadores, e, paradoxalmente, é actual por excesso para resultar conveniente e interessante. Acreditamos que, com o auxiliado vôo da Minerva, haveremos de esperar algum tempo para podermos falar desse passado perturbador e, deste presente que ainda nos escapa.

 

EDITORIAL

 

O Festival Internacional de Cinema e Literatura de Olhão volta para a sua 2ª edição com mais relações inusitadas entre cinema e literatura, a programação abarca desde documentários a ficções, passando inclusive pela animação.

A imagem surge como um profundo desejo inerente ao fenómeno da escrita, e o cinema, enquanto nova forma de arte, revolucionou a literatura, aparecendo talvez a literatura mais interessante e problemática do nosso tempo. Curiosamente, nunca teríamos mergulhado com Virgina Woolf e Joyce tão profundamente na consciência, sem a existência do cinema mudo.

E o cinema, perante essa nova maneira de contar, enfrenta o grande desafio de encontrar o equivalente visual de um mundo interno, múltiplo, disperso e desagregado. Como é o caso, dos infinitos espelhos reflectindo o eu dividido de Sofia Garay em The Good Girls, de Alejandra Márques Abella, com uma narrativa interceptada pelo seu monólogo interior delirante, filme que podemos encontrar na secção de Competição Internacional. Nesta ordem das coisas, o Ciclo dedicado ao grande cinema italiano reflecte magistralmente aquele desafío visual, referido anteriormente: desde Journey to Italy (1954), inspirado nas últimas páginas de “Os Mortos”, conto do “Dublinenses” de James Joyce, que, segundo os Cahiers, inaugura um novo tempo no cinema, até ao Antonioni do nouveau roman com The Passenger (1975), onde se emprega a ambiguidade da imagem como recurso especificamente cinematográfico (para expressar a dissociação da consciência), para citar alguns dos filmes do ciclo italiano. Precisamente, estes últimos filmes, todos eles se valem da estrutura narrativa e da temática da viagem para a exploração da identidade. A viagem, mais ou menos épica, é o grande tema que percorre praticamente todos os filmes da competição internacional; desde a viagem e memória de There was a Little Ship de Marion Hänsel, à viagem através da memória histórica e literária do Endless Night do galego Eloy Enciso, passando pela viagem com estrutura de conto de fadas e temática dos irmãos Grimm, o Hansel e Gretel de Adoration de Fabrice du Welz, o outro filme belga em competição que inaugura esta 2ª edição do FICLO. A viagem sem retorno no deserto de Fortress, a viagem no inferno paramilitar do magnífico filme colombiano Valley of Souls de Nicolás Rincón Gille, até Campo de Tiago Hespanha em residência artística para a escrita de um argumento, o qual será alvo de uma Leitura Encenada, orientada por Rogério de Carvalho numa tentativa de explorar as relações entre cinema e teatro que, como já foi referido, será realizada numa próxima edição. Também marcarão presença ao vivo ou em videoconferência Ludovica Andò e Emiliano Aiello, realizadores de Fortress, um filme que se inspira no livro “Deserto dos Tártaros” de Dino Buzzati, e que, afastando-se do modelo de sintaxe romancista (por capítulos), decide narrar por cenas e actos, seguindo as possibilidades do teatro, estabelecendo um diálogo sobre o confinamento, diálogo e problemática que atravessa o tempo histórico, diegético e extra-diegético (alguns dos actores são efectivamente reclusos da prisão Civitavecchia). Ou o I Do Not Care If We go Down in History as Barbarians, do romeno Radu Jude, que leva o teatro para o cinema, com a reconstituição do holocausto de Odesa de 1941, confrontando-nos, nessa viagem, com o branqueamento da memória histórica. E ainda pelo teatro chegamos a Albert Serra, em particular ao seu último filme que integra a retrospectiva integral das obras de inspiração literária; Liberté, baseada numa peça teatral homónima que, nas palavras de Serra, trata-se de um “teatro de marionetes carnal e materialmente muito poderoso”. Tanto Liberté, como o novo argumento que o Tiago Hespanha se encontra a escrever em Olhão, são histórias que exploram a noite. Do obscuro e, neste caso, perturbador, dava conta o ciclo do Gótico Tropical. Ciclo que como dissemos anteriormente foi igualmente adiado. O Ciclo agrupa títulos dos realizadores colombianos, Carlos Mayolo e, o recentemente falecido, Luis Ospina, do grupo de Cali, e outras produções da América Latina que partilham a sua ética e estética. Exploraremos, em próximas edições, a reciclagem e transformação do género do gótico na América Latina, a partir das relações de poder derivadas do Imperialismo.

O FICLO é promovido pelo Cineclube de Tavira em co-produção com a Câmara Municipal de Olhão e é apoiado pelo Programa 365 Algarve.

Queremos agradecer a todos os parceiros e patrocinadores e a toda a equipa que permite que este Festival aconteça. Em especial, agradecemos à Câmara Municipal de Olhão a aposta no FICLO e ao Programa 365 Algarve pelo apoio inestimável ao festival.